Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia
Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — São Paulo, Brasil
Revisado em: Maio de 2026
Tempo de leitura: 13 minutos
O que é lipoenxertia mamária?
A lipoenxertia mamária — também denominada lipofilling mamário ou transferência de gordura autóloga para a mama — é um procedimento cirúrgico no qual gordura é coletada de uma região doadora do corpo da paciente por meio de lipoaspiração, processada em laboratório e reinjetada na mama para fins reconstrutivos ou estéticos.
A gordura utilizada na lipoenxertia é tecido autólogo — da própria paciente —, o que elimina o risco de rejeição imunológica.
Após a transferência, a gordura reinjetada estabelece nova vascularização no local receptor e passa a se comportar como tecido nativo da mama, com textura, temperatura e consistência naturais.
A lipoenxertia mamária tem três aplicações principais na mastologia moderna:
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como técnica complementar na reconstrução mamária pós-mastectomia;
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como tratamento regenerativo para mamas irradiadas;
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e como recurso de refinamento estético para correção de irregularidades e assimetrias.
Como funciona a lipoenxertia mamária? Etapa por etapa
O procedimento da lipoenxertia mamária é realizado sob anestesia geral ou sedação, dependendo do volume a ser transferido e dos procedimentos associados.
As etapas são realizadas de forma sequencial no mesmo ato cirúrgico.
Etapa 1 — Lipoaspiração (coleta da gordura)
A gordura é coletada de regiões do corpo onde há excesso de tecido adiposo, como abdome, flancos, coxas ou região interna dos joelhos.
A lipoaspiração é realizada com cânulas finas e técnica delicada — diferente da lipoaspiração estética convencional — para preservar a viabilidade das células adiposas.
A escolha da região doadora é individualizada, considerando a disponibilidade de gordura e as preferências da paciente.
Um benefício adicional é que a área doadora fica remodelada após a coleta, o que representa um ganho estético complementar.
Etapa 2 — Processamento da gordura
O material lipoaspirado é processado para separar as células adiposas viáveis de óleo, sangue, anestésico e resíduos celulares.
As técnicas de processamento mais utilizadas são:
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decantação;
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centrifugação;
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e filtragem.
O objetivo é obter um concentrado de adipócitos íntegros com máxima taxa de sobrevivência após a reinjeção.
Etapa 3 — Reinjeção na mama
A gordura processada é reinjetada na mama por meio de microcânulas, em pequenas quantidades, distribuídas em múltiplos planos e múltiplas direções.
Essa técnica — denominada infiltração em microgotículas — é fundamental para garantir que cada porção de gordura fique em contato com tecido vascularizado, maximizando a taxa de integração e sobrevivência do enxerto.
A infiltração é feita camada por camada:
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no plano subcutâneo (sob a pele);
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no plano glandular (quando presente);
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no plano muscular;
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e no plano retromuscular.
Essa distribuição tridimensional é o que diferencia uma lipoenxertia bem executada de um procedimento com resultados imprevisíveis.
Etapa 4 — Curativo e cuidados imediatos
Após a reinjeção, a mama é protegida com curativo leve, sem compressão excessiva — pois a compressão pode comprometer a vascularização da gordura recém-enxertada.
Na área doadora, é aplicada uma cinta compressiva convencional.
Indicações da lipoenxertia mamária
A lipoenxertia mamária possui indicações bem estabelecidas na literatura médica e na prática clínica.
As principais são apresentadas a seguir.
Refinamento da reconstrução mamária
Após a reconstrução mamária — seja com implante de silicone ou com retalho autólogo (TRAM, DIEP, grande dorsal) —, frequentemente existem irregularidades de contorno, assimetrias localizadas, depressões ou transições abruptas entre o tecido reconstruído e o tecido nativo.
A lipoenxertia é a técnica de escolha para corrigir essas imperfeições, funcionando como um “acabamento fino” da reconstrução.
Tratamento regenerativo de mamas irradiadas
Esta é uma das indicações de maior valor clínico da lipoenxertia mamária.
A radioterapia causa danos progressivos ao tecido mamário e torácico:
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fibrose;
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perda de elasticidade;
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afinamento da pele;
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alteração da textura;
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e comprometimento da vascularização local.
A gordura transplantada exerce um efeito regenerativo documentado sobre os tecidos irradiados.
As células-tronco mesenquimais presentes no tecido adiposo promovem:
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neovascularização;
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redução da fibrose;
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e melhora da qualidade da pele irradiada.
Clinicamente, observa-se:
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aumento da espessura cutânea;
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melhora da elasticidade;
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e redução do endurecimento local.
Esse efeito regenerativo torna a lipoenxertia uma ferramenta estratégica no preparo de mamas irradiadas para reconstruções futuras — seja com implante ou com retalho autólogo.
Em muitos casos, uma ou duas sessões de lipoenxertia prévia transformam um tecido que seria inadequado para reconstrução em um leito receptor viável.
Reconstrução mamária primária com lipoenxertia exclusiva
Em casos selecionados, a lipoenxertia pode ser utilizada como técnica primária de reconstrução mamária — sem implante e sem retalho.
Essa abordagem é indicada para pacientes que necessitam de pequenos a moderados volumes de reconstrução e que possuem reserva de gordura corporal adequada.
A reconstrução com lipoenxertia exclusiva exige múltiplas sessões (geralmente 2 a 4, espaçadas por 3 a 6 meses), pois o volume que pode ser transferido com segurança em cada procedimento é limitado.
A cada sessão, uma porção da gordura enxertada é absorvida pelo corpo (tipicamente 20% a 40%), e o volume residual estabilizado representa o ganho real.
Correção de sequelas de cirurgia conservadora
Após a cirurgia oncoplástica ou a quadrantectomia, podem restar depressões ou retrações localizadas na mama operada.
A lipoenxertia permite preencher esses defeitos com precisão, restaurando o contorno natural sem necessidade de nova cirurgia mamária de grande porte.
Melhora da cobertura sobre implantes
Em pacientes com implantes mamários que apresentam contorno visível ou palpável da prótese — especialmente nos polos superiores ou nas bordas —, a lipoenxertia pode adicionar uma camada de tecido mole que suaviza a transição e confere aparência mais natural.
A lipoenxertia mamária é segura do ponto de vista oncológico?
Essa pergunta é fundamental e merece resposta clara.
Durante anos, existiu preocupação teórica de que a transferência de gordura — e as células-tronco nela contidas — pudesse estimular o crescimento de células tumorais residuais na mama.
No entanto, os estudos clínicos acumulados ao longo das últimas duas décadas são consistentes e tranquilizadores.
Revisões sistemáticas e meta-análises publicadas em periódicos de referência — incluindo o Plastic and Reconstructive Surgery e o Annals of Surgical Oncology — não demonstraram aumento nas taxas de recidiva local do câncer de mama em pacientes submetidas à lipoenxertia mamária pós-tratamento oncológico.
As principais sociedades médicas internacionais — incluindo a American Society of Plastic Surgeons (ASPS) e a European Association of Plastic Surgeons — consideram a lipoenxertia mamária um procedimento seguro em pacientes oncológicas, desde que indicada e realizada adequadamente.
É importante ressaltar que o acompanhamento oncológico deve ser mantido normalmente após a lipoenxertia.
A gordura transferida pode, em alguns casos, causar alterações nos exames de imagem — como cistos oleosos ou calcificações — que precisam ser diferenciadas de alterações suspeitas por um radiologista experiente.
A comunicação entre o mastologista e o radiologista sobre a realização da lipoenxertia é essencial.
Quanto volume de gordura pode ser transferido por sessão?
O volume seguro de gordura por sessão varia conforme o caso, mas em geral situa-se entre 100 ml e 350 ml por mama.
Transferir volumes maiores em uma única sessão aumenta o risco de necrose gordurosa (morte das células adiposas por falta de vascularização) e de absorção excessiva.
A filosofia da lipoenxertia mamária é gradualista: múltiplas sessões de volumes moderados produzem resultados mais previsíveis e duradouros do que uma única sessão de grande volume.
A cada sessão, o tecido receptor se adapta, vasculariza a gordura enxertada e se torna mais receptivo à sessão seguinte.
Taxa de absorção e resultados
A taxa de absorção da gordura enxertada na mama varia entre 20% e 40% por sessão, dependendo da técnica de processamento, da técnica de infiltração e das condições locais do tecido receptor.
Isso significa que, de cada 100 ml injetados, entre 60 ml e 80 ml permanecem de forma definitiva.
O resultado estabiliza em torno de 3 a 6 meses após cada sessão, quando a gordura sobrevivente já estabeleceu vascularização definitiva.
Após essa estabilização, o volume é permanente e acompanha as variações de peso corporal:
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se a paciente engorda, a gordura enxertada também aumenta;
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se emagrece, diminui proporcionalmente.
Recuperação pós-operatória
A recuperação da lipoenxertia mamária é considerada rápida em comparação com outras técnicas de reconstrução.
Na mama, pode haver:
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inchaço;
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sensibilidade;
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e equimoses leves, que se resolvem em 1 a 2 semanas.
Não são utilizados drenos.
O curativo é leve e a mama não deve ser comprimida.
Na área doadora, o desconforto é semelhante ao de uma lipoaspiração:
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dor leve a moderada;
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equimoses;
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e inchaço.
Esses sintomas são controlados com analgésicos e uso de cinta compressiva por 3 a 4 semanas.
O retorno às atividades habituais costuma ocorrer em 5 a 7 dias.
Exercícios físicos podem ser retomados progressivamente após 2 a 3 semanas, com liberação completa em 4 semanas.
Complicações possíveis
As complicações da lipoenxertia mamária são geralmente menores e autolimitadas.
As mais relevantes incluem:
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necrose gordurosa (endurecimento localizado por morte de células adiposas — tratada conservadoramente na maioria dos casos);
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cistos oleosos (cavidades contendo gordura liquefeita — visíveis em exames de imagem e geralmente assintomáticos);
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absorção excessiva (perda de volume maior que o esperado — pode necessitar de sessão adicional);
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equimoses e edema (esperados e transitórios);
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e infecção (rara, tratada com antibióticos).
Complicações graves são incomuns quando a técnica é realizada por profissional experiente e com indicação adequada.
Perguntas frequentes sobre lipoenxertia mamária
O que é lipoenxertia mamária?
É a transferência de gordura da própria paciente, coletada por lipoaspiração de regiões como abdome ou coxas, processada e reinjetada na mama para fins de reconstrução, refinamento estético ou regeneração tecidual.
Por utilizar tecido autólogo, não há risco de rejeição.
A lipoenxertia mamária é segura para pacientes que tiveram câncer de mama?
Sim.
Os estudos clínicos disponíveis não demonstram aumento nas taxas de recidiva do câncer de mama após lipoenxertia.
As principais sociedades médicas internacionais consideram o procedimento seguro em pacientes oncológicas adequadamente selecionadas.
Quantas sessões são necessárias?
Depende do objetivo.
Para refinamento de reconstrução, 1 a 2 sessões costumam ser suficientes.
Para reconstrução mamária primária com lipoenxertia exclusiva, geralmente são necessárias 2 a 4 sessões, espaçadas por 3 a 6 meses.
A gordura enxertada é permanente?
A gordura que sobrevive ao processo de integração (60% a 80% do volume injetado) torna-se permanente e se comporta como tecido mamário nativo.
Acompanha variações de peso corporal normalmente.
A lipoenxertia pode ser usada em mamas irradiadas?
Sim, e esta é uma de suas indicações mais valiosas.
A gordura transferida exerce efeito regenerativo sobre o tecido irradiado, melhorando a qualidade da pele, reduzindo a fibrose e preparando a região para reconstruções futuras.
A lipoenxertia substitui a prótese de silicone?
Em casos selecionados, sim — especialmente quando o volume necessário é pequeno a moderado.
Para grandes volumes, a lipoenxertia sozinha pode ser insuficiente, sendo mais indicada como complemento a outras técnicas (implante, TRAM, DIEP).
A lipoenxertia interfere na mamografia?
A gordura enxertada pode causar alterações benignas nos exames de imagem (cistos oleosos, calcificações).
Essas alterações são diferenciáveis de lesões suspeitas por radiologistas experientes.
É importante informar ao radiologista que a lipoenxertia foi realizada.
Qual a diferença entre lipoenxertia e lipoaspiração?
A lipoaspiração é a remoção de gordura para remodelamento corporal.
A lipoenxertia inclui a lipoaspiração como primeira etapa, mas adiciona o processamento e a reinjeção da gordura em outra região do corpo — neste caso, a mama.
Dr. Wesley Andrade · CRM 122593/SP
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