Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia · Desenvolvedor do TNM8 Breast Cancer Calculator (licenciado pela AJCC)
Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — São Paulo, Brasil
Revisado em: Junho de 2026
Tempo de leitura: 14 minutos
O que é o tumor filoide da mama?
O tumor filoide — também grafado como tumor filoides ou tumor phyllodes — é uma neoplasia fibroepitelial rara da mama, composta por tecido estromal (conjuntivo) e tecido epitelial (glandular) que crescem de forma conjunta, formando um padrão arquitetural característico em formato de folhas. O próprio nome “phyllodes” vem do grego phyllon, que significa folha — uma referência à aparência microscópica do tumor.
Os tumores filoides representam menos de 1% de todos os tumores da mama. São mais frequentes em mulheres entre 40 e 50 anos, embora possam ocorrer em qualquer faixa etária, incluindo adolescentes e idosas. Raramente acometem homens.
Apesar de raros, os tumores filoides merecem atenção especial por três razões: podem ser confundidos com fibroadenomas nos exames clínicos e de imagem, podem apresentar comportamento localmente agressivo com alta taxa de recidiva quando não ressecados adequadamente, e uma parcela deles — os filoides malignos — pode metastatizar, comportando-se de forma semelhante a um sarcoma.
Classificação do tumor filoide: benigno, borderline e maligno
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica os tumores filoides em três categorias com base em critérios histopatológicos avaliados pelo patologista na análise microscópica do tumor.
Tumor filoide benigno
O tumor filoide benigno é a categoria mais comum, representando 50% a 70% dos casos. Apresenta bordas bem delimitadas, baixa celularidade estromal, ausência de atipia nuclear significativa, poucas figuras de mitose (geralmente menos de 5 por 10 campos de grande aumento) e ausência de supercrescimento estromal.
O tumor filoide benigno não metastatiza. Entretanto, pode recidivar localmente se não for ressecado com margens adequadas. A taxa de recidiva local do tumor filoide benigno varia entre 5% e 15% na literatura.
Tumor filoide borderline (limítrofe)
O tumor filoide borderline apresenta características intermediárias entre o benigno e o maligno. A celularidade estromal é moderada, pode haver atipia nuclear focal, as figuras de mitose são mais frequentes (5 a 9 por 10 campos), e as bordas podem ser parcialmente infiltrativas.
O termo “borderline” reflete a dificuldade de prever o comportamento biológico desses tumores. A taxa de recidiva local é maior do que nos benignos (15% a 25%), e embora metástases sejam incomuns, não podem ser completamente excluídas. A conduta cirúrgica para tumores borderline é mais agressiva do que para benignos.
Tumor filoide maligno
O tumor filoide maligno representa 8% a 30% dos casos, dependendo da série. Apresenta alta celularidade estromal, atipia nuclear significativa, 10 ou mais figuras de mitose por 10 campos, supercrescimento estromal (predomínio do componente estromal sobre o epitelial), bordas infiltrativas e, em alguns casos, diferenciação heteróloga maligna — como áreas de lipossarcoma, osteossarcoma ou condrossarcoma dentro do tumor.
O tumor filoide maligno pode metastatizar por via hematogênica — diferentemente dos carcinomas mamários, que se disseminam preferentemente por via linfática. Os sítios mais comuns de metástase são os pulmões, seguidos por ossos, fígado e cérebro. A taxa de metástase a distância varia entre 10% e 25%, e o prognóstico na doença metastática é desfavorável.
A subjetividade da classificação
Um aspecto importante que a paciente e a família devem saber: a classificação dos tumores filoides apresenta variabilidade entre patologistas. Um mesmo tumor pode ser classificado como benigno por um patologista e como borderline por outro. Isso ocorre porque os critérios da OMS envolvem graus de subjetividade na interpretação — especialmente nos casos intermediários.
Por essa razão, a revisão do material de patologia por um patologista especializado em mama é recomendada em todos os casos de tumor filoide — particularmente nos borderline e malignos, onde a classificação impacta diretamente a conduta cirúrgica.
Tumor filoide vs. fibroadenoma: como diferenciar?
A confusão entre tumor filoide e fibroadenoma é um dos desafios mais comuns na mastologia. Ambos são tumores fibroepiteliais que se apresentam como nódulos sólidos, firmes e bem delimitados na mama. A distinção entre eles, nos exames de imagem, pode ser impossível.
Semelhanças
Clinicamente, ambos se manifestam como nódulos palpáveis, móveis e geralmente indolores. Na mamografia e na ultrassonografia, podem ser indistinguíveis — ambos aparecem como nódulos sólidos, bem circunscritos, homogêneos. Na ressonância magnética, algumas características — como fendas internas (clefts) e realce heterogêneo — podem sugerir tumor filoide, mas não são definitivas.
Diferenças que levantam suspeita
Algumas características devem levantar a suspeita de tumor filoide em vez de fibroadenoma: crescimento rápido — um nódulo que aumenta de tamanho rapidamente (em semanas ou poucos meses) deve ser investigado com mais atenção; tamanho grande — nódulos acima de 3 centímetros, especialmente se de crescimento recente, merecem investigação; idade da paciente — fibroadenomas são mais comuns em mulheres jovens (15-35 anos), enquanto tumores filoides têm pico entre 40-50 anos; e achados histológicos na biópsia — a core biopsy pode sugerir “lesão fibroepitelial com estroma hipercelular”, mas frequentemente não consegue diferenciar de forma definitiva entre fibroadenoma celular e tumor filoide. A biópsia excisional pode ser necessária para o diagnóstico definitivo.
A armadilha diagnóstica
Uma situação frequente é a seguinte: a paciente tem um nódulo diagnosticado como fibroadenoma na biópsia por agulha, é submetida a excisão cirúrgica, e o exame anatomopatológico da peça cirúrgica revela que, na verdade, tratava-se de um tumor filoide. Isso ocorre porque a core biopsy amostra apenas uma pequena porção do tumor, e a arquitetura em folhas — característica do filoide — pode não estar representada nos fragmentos obtidos.
Por esse motivo, quando há suspeita clínica ou radiológica de tumor filoide (nódulo grande, crescimento rápido, estroma hipercelular na biópsia), a excisão cirúrgica completa é preferível ao acompanhamento — tanto para diagnóstico definitivo quanto para tratamento.
Diagnóstico do tumor filoide
O diagnóstico do tumor filoide segue uma sequência que combina avaliação clínica, exames de imagem e análise histológica.
Exame clínico: nódulo palpável, firme, bem delimitado, às vezes volumoso, com relato de crescimento recente.
Mamografia e ultrassonografia: nódulo sólido, circunscrito, semelhante a fibroadenoma. Pode apresentar áreas císticas internas nos tumores maiores. Microcalcificações são incomuns.
Ressonância magnética: pode revelar heterogeneidade interna e fendas (clefts) sugestivas, mas não é definitiva.
Biópsia por agulha grossa (core biopsy): pode sugerir “lesão fibroepitelial” com estroma hipercelular, mas a diferenciação entre fibroadenoma celular e tumor filoide nem sempre é possível com fragmentos de biópsia. Quando a core biopsy reporta “lesão fibroepitelial com estroma hipercelular” ou “não é possível excluir tumor filoide”, a excisão cirúrgica é indicada para diagnóstico definitivo.
Biópsia excisional: a remoção completa do tumor é frequentemente necessária para o diagnóstico definitivo, pois permite ao patologista avaliar a arquitetura global do tumor, as margens, a celularidade estromal e os critérios de classificação da OMS.
Tratamento do tumor filoide
O tratamento dos tumores filoides é essencialmente cirúrgico. O tipo e a extensão da cirurgia dependem da classificação do tumor, do tamanho, da localização e da relação entre o tumor e o volume mamário.
Princípios cirúrgicos
O objetivo da cirurgia é a excisão completa do tumor com margens livres. A margem adequada é um dos pontos de maior debate na literatura sobre tumores filoides.
Tumor filoide benigno: a excisão com margens livres é suficiente. Margens estreitas (1 a 2 mm) são aceitáveis desde que livres. A re-excisão por margens comprometidas pode ser necessária.
Tumor filoide borderline: a recomendação é a excisão com margem de pelo menos 1 centímetro quando possível. A margem mais ampla visa reduzir o risco de recidiva local, que é maior nessa categoria.
Tumor filoide maligno: a margem recomendada é de pelo menos 1 centímetro. Em tumores grandes ou com margens insuficientes, a mastectomia pode ser necessária para garantir controle local adequado.
Cirurgia conservadora vs. mastectomia
A cirurgia conservadora (excisão ampla ou oncoplástica) é a abordagem preferida sempre que as margens adequadas possam ser obtidas com resultado estético aceitável. As técnicas oncoplásticas são particularmente úteis nos tumores filoides, pois permitem ressecções amplas com remodelamento mamário.
A mastectomia é indicada quando o tumor é muito grande em relação à mama (impedindo margens adequadas com conservação), quando há recidiva local após excisões prévias, quando o tumor é maligno com margens comprometidas que não podem ser ampliadas por nova excisão, ou quando a paciente opta pela mastectomia após discussão das opções.
Linfadenectomia axilar
Diferentemente do carcinoma mamário, o tumor filoide não se dissemina por via linfática (exceto em raras situações de componente carcinomatoso associado). Por esse motivo, a biópsia do linfonodo sentinela e a linfadenectomia axilar não são indicadas nos tumores filoides — mesmo nos malignos. As metástases do tumor filoide maligno ocorrem por via hematogênica.
Reconstrução mamária
Quando a mastectomia é necessária, a reconstrução mamária imediata pode ser realizada na mesma cirurgia, com implante de silicone ou técnica autóloga, seguindo os mesmos princípios da reconstrução pós-mastectomia por carcinoma.
Em cirurgias conservadoras de tumores filoides volumosos, as técnicas oncoplásticas permitem a remoção do tumor com margens amplas e rearranjo do tecido remanescente para manter a forma da mama.
Margens cirúrgicas: o que fazer quando são comprometidas?
A questão das margens é central no manejo dos tumores filoides. O que fazer quando o resultado anatomopatológico mostra margens comprometidas (tumor tocando a borda do tecido removido)?
Tumor filoide benigno com margem comprometida: a re-excisão pode ser considerada, embora a observação com acompanhamento clínico e por imagem seja uma opção aceitável em casos selecionados, especialmente quando a re-excisão comprometeria significativamente o resultado estético.
Tumor filoide borderline com margem comprometida: a re-excisão é recomendada para ampliação das margens.
Tumor filoide maligno com margem comprometida: a re-excisão é fortemente recomendada. Se margens adequadas não puderem ser obtidas com nova excisão conservadora, a mastectomia deve ser considerada.
Papel da radioterapia e da quimioterapia
Radioterapia
O papel da radioterapia adjuvante nos tumores filoides é controverso e não está bem estabelecido. Não há ensaios clínicos randomizados que demonstrem benefício definitivo.
No entanto, a radioterapia pode ser considerada em tumores filoides malignos com margens comprometidas ou exíguas quando a re-excisão não é possível, tumores filoides malignos recidivados e tumores filoides malignos com alto risco de recidiva local.
A decisão deve ser individualizada e discutida em equipe multidisciplinar.
Quimioterapia
A quimioterapia tem papel limitado no tratamento dos tumores filoides. Nos raros casos de doença metastática por tumor filoide maligno, os esquemas utilizados são semelhantes aos empregados para sarcomas de partes moles — incluindo doxorrubicina e ifosfamida — e não os esquemas convencionais de câncer de mama.
A hormonioterapia e a terapia anti-HER2 não têm indicação nos tumores filoides, pois o componente maligno é estromal (conjuntivo), não epitelial.
Recidiva local do tumor filoide
A recidiva local é a principal preocupação no seguimento de pacientes com tumor filoide. As taxas de recidiva variam conforme a classificação e a adequação das margens.
Tumor filoide benigno: recidiva local em 5% a 15% dos casos, geralmente como novo tumor filoide benigno.
Tumor filoide borderline: recidiva em 15% a 25% dos casos. A recidiva pode ocorrer com a mesma classificação ou com upgrade (borderline que recidiva como maligno).
Tumor filoide maligno: recidiva local em 20% a 30% dos casos, com risco adicional de metástase a distância.
A recidiva local é tratada com nova excisão cirúrgica com margens amplas. Recidivas múltiplas podem indicar necessidade de mastectomia para controle definitivo.
O acompanhamento pós-operatório com exame clínico e ultrassonografia mamária é recomendado a cada 6 meses nos primeiros 2 anos e anualmente após, para detecção precoce de recidivas.
Tumor filoide gigante
Os tumores filoides podem atingir tamanhos muito grandes — 10, 15, 20 centímetros ou mais — particularmente quando o diagnóstico é tardio ou quando a paciente adia a busca por avaliação médica.
Tumores filoides gigantes (geralmente definidos como maiores que 10 cm) apresentam desafios cirúrgicos específicos. A ressecção pode exigir mastectomia com reconstrução imediata, e o volume do tumor pode causar distorção significativa da mama, retração da pele e até ulceração cutânea em casos extremos.
A abordagem cirúrgica de tumores filoides gigantes exige planejamento detalhado, incluindo avaliação da extensão do tumor por ressonância magnética, planejamento oncoplástico ou de reconstrução, e discussão com a paciente sobre as opções e expectativas de resultado.
Prognóstico do tumor filoide
O prognóstico dos tumores filoides varia significativamente conforme a classificação.
Tumor filoide benigno: prognóstico excelente. Mortalidade próxima de zero. A recidiva local, quando ocorre, é tratável com nova excisão.
Tumor filoide borderline: prognóstico favorável. Recidiva local é a principal preocupação. Metástases são raras.
Tumor filoide maligno: prognóstico variável. A maioria das pacientes com doença localizada e margens adequadas tem boa evolução. No entanto, quando ocorrem metástases a distância, o prognóstico é reservado — semelhante ao dos sarcomas de partes moles.
Perguntas frequentes sobre tumor filoide da mama
O que é tumor filoide da mama? É um tumor raro da mama composto por tecido estromal e epitelial, com padrão microscópico em folhas. Representa menos de 1% dos tumores mamários e é classificado pela OMS em benigno, borderline ou maligno. O tratamento é essencialmente cirúrgico.
Tumor filoide é câncer de mama? Não no sentido convencional. O tumor filoide é uma neoplasia fibroepitelial, diferente do carcinoma mamário. O tumor filoide maligno comporta-se como um sarcoma, não como um carcinoma. Entretanto, tumores filoides malignos podem metastatizar e são considerados neoplasias malignas.
Qual a diferença entre tumor filoide e fibroadenoma? Ambos são tumores fibroepiteliais, mas o filoide apresenta estroma hipercelular e padrão em folhas. Clinicamente e nos exames de imagem, podem ser indistinguíveis. A biópsia por agulha nem sempre diferencia. A excisão cirúrgica pode ser necessária para diagnóstico definitivo.
Tumor filoide benigno pode virar maligno? A progressão direta de benigno para maligno é discutida na literatura. É mais comum que recidivas locais mantenham a mesma classificação, embora upgrade (recidiva com categoria mais agressiva) possa ocorrer, especialmente em tumores borderline.
Qual o tratamento do tumor filoide? Excisão cirúrgica com margens livres é o tratamento padrão para todas as categorias. Margens de pelo menos 1 cm são recomendadas para tumores borderline e malignos. A linfadenectomia axilar não é indicada. Radioterapia e quimioterapia têm papel limitado e são reservadas para casos selecionados.
O tumor filoide pode recidivar? Sim. A recidiva local é a principal preocupação — com taxas entre 5% e 30% dependendo da classificação e das margens cirúrgicas. O acompanhamento regular com exame clínico e ultrassonografia é essencial.
O tumor filoide pode metastatizar? Apenas o tumor filoide maligno pode metastatizar, por via hematogênica (sangue), preferencialmente para pulmões. Os filoides benignos e borderline não metastatizam (ou apenas excepcionalmente nos borderline).
A quimioterapia funciona para tumor filoide? A quimioterapia convencional de câncer de mama não é eficaz. Nos raros casos de doença metastática, utilizam-se esquemas de sarcoma (doxorrubicina, ifosfamida). A hormonioterapia e a terapia anti-HER2 não têm indicação.
Preciso fazer mamografia de rotina depois do tratamento do tumor filoide? Sim. O acompanhamento inclui exame clínico e ultrassonografia mamária a cada 6 meses nos primeiros 2 anos, seguido de acompanhamento anual. A mamografia de rotina conforme a faixa etária deve ser mantida.
Dr. Wesley Andrade · CRM 122593/SP Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia Desenvolvedor do TNM8 Breast Cancer Calculator — licenciado pela AJCC Rua Pamplona 145, Sala 1412, Jardim Paulista — São Paulo/SP drwesleyandrade.com.br · Instagram: @dr.wesleyandrade
