Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia
Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — São Paulo, Brasil
Revisado em: Maio de 2026
Tempo de leitura: 12 minutos
Prótese de silicone causa câncer de mama?
Essa é uma das perguntas mais frequentes que recebo no consultório e uma das mais pesquisadas na internet.
A resposta, baseada em décadas de evidência científica, é clara: não existe associação entre implantes de silicone mamário e aumento do risco de câncer de mama.
Múltiplos estudos de grande escala — incluindo meta-análises publicadas em periódicos de referência — avaliaram a relação entre implantes mamários e câncer de mama e não encontraram aumento de incidência. Mulheres com próteses de silicone desenvolvem câncer de mama na mesma proporção que mulheres sem implantes.
Entretanto, existe uma condição rara e específica que precisa ser conhecida: o BIA-ALCL (Breast Implant-Associated Anaplastic Large Cell Lymphoma), um linfoma — não um câncer de mama propriamente dito — que pode se desenvolver ao redor do implante. Essa condição merece atenção e será detalhada adiante.
O que é BIA-ALCL?
O BIA-ALCL (Linfoma Anaplásico de Grandes Células Associado a Implante Mamário) é um tipo raro de linfoma de células T que se desenvolve na cápsula fibrosa que se forma ao redor do implante mamário.
É importante entender que não se trata de câncer de mama — é um linfoma, ou seja, um câncer do sistema linfático que se origina na cápsula periprotética, não no tecido mamário.
O BIA-ALCL foi formalmente reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2016 como entidade diagnóstica distinta. Desde então, o conhecimento sobre a doença tem avançado significativamente.
Incidência
O BIA-ALCL é extremamente raro. As estimativas de risco variam conforme o tipo de implante, mas a incidência geral é estimada entre 1 em cada 3.000 e 1 em cada 30.000 mulheres com implantes, dependendo da texturização da superfície.
O risco é significativamente maior com implantes de superfície macrotexturizada (textura grossa), especialmente os implantes de poliuretano e os implantes Biocell da Allergan (retirados do mercado em 2019).
Implantes de superfície lisa ou microtexturizada apresentam risco muito menor, com poucos casos relatados na literatura.
Apresentação clínica
O sintoma mais comum do BIA-ALCL é o aumento de volume unilateral tardio da mama — um inchaço em uma das mamas que aparece geralmente anos após a colocação do implante (mediana de 8 a 10 anos após a cirurgia).
Esse aumento é causado pelo acúmulo de líquido (seroma tardio) ao redor do implante.
Outros sinais incluem endurecimento ou massa palpável ao redor do implante, dor ou desconforto na mama afetada, e assimetria nova entre as mamas.
Diagnóstico
O diagnóstico é feito pela análise do líquido periprotético (obtido por punção) ou do tecido da cápsula (obtido por biópsia ou capsulectomia).
O exame citológico mostra células atípicas grandes, e a imuno-histoquímica é positiva para CD30 e negativa para ALK — marcadores que definem o diagnóstico.
A ultrassonografia e a ressonância magnética são os exames de imagem utilizados para detectar o seroma periprotético e avaliar a extensão da doença.
Tratamento
Na maioria dos casos, o BIA-ALCL se apresenta em estágio localizado (confinado à cápsula) e o tratamento consiste na remoção completa do implante com capsulectomia total (remoção da cápsula fibrosa inteira).
Quando a doença é diagnosticada precocemente e o tratamento cirúrgico é adequado, as taxas de cura são superiores a 90%.
Em casos raros de doença avançada (invasão além da cápsula ou comprometimento linfonodal), quimioterapia e/ou radioterapia podem ser necessárias.
A mensagem central sobre BIA-ALCL
O BIA-ALCL é uma condição rara, tratável e com excelente prognóstico quando diagnosticada precocemente.
Sua existência não significa que implantes mamários são perigosos. Significa que mulheres com implantes — especialmente os de superfície texturizada — devem estar informadas sobre a possibilidade, conhecer os sinais de alerta e manter acompanhamento regular.
A prótese de silicone atrapalha a mamografia?
Essa é outra preocupação frequente.
A prótese de silicone não impede a realização da mamografia, mas requer uma técnica específica.
A manobra de Eklund é a técnica padrão utilizada em mamografias de mulheres com implantes. Nessa manobra, a técnica de radiologia desloca a prótese para trás e posiciona apenas o tecido mamário anterior para compressão e aquisição da imagem.
Isso permite a visualização adequada da maior parte do tecido mamário.
Alguns pontos importantes sobre mamografia e implantes:
-
A prótese pode obscurecer uma porção do tecido mamário (estimada em 10% a 25%), reduzindo discretamente a sensibilidade da mamografia;
-
A ultrassonografia mamária complementar é frequentemente recomendada para mulheres com implantes, especialmente em mamas densas;
-
A ressonância magnética das mamas oferece a melhor visualização do tecido mamário em mulheres com próteses e pode ser indicada em situações específicas;
-
É fundamental informar a clínica de imagem sobre a presença de implantes no momento do agendamento, para que a equipe esteja preparada para a técnica adequada.
A presença de implantes não é razão para deixar de fazer mamografia.
O rastreamento mamográfico deve ser mantido normalmente, com a periodicidade recomendada para a faixa etária.
A prótese de silicone pode romper? O que acontece?
Os implantes mamários modernos são dispositivos de alta engenharia, mas como todo dispositivo médico, têm vida útil e podem apresentar desgaste ao longo do tempo.
Ruptura intracapsular
Na ruptura intracapsular, o gel de silicone vaza do invólucro do implante mas permanece contido dentro da cápsula fibrosa que o corpo forma ao redor da prótese.
Geralmente é assintomática — a paciente não percebe — e frequentemente é um achado incidental na ressonância magnética.
A conduta é a troca cirúrgica do implante de forma programada.
Ruptura extracapsular
Na ruptura extracapsular, o silicone extravasa além da cápsula e pode se espalhar pelos tecidos adjacentes.
Pode causar nódulos de silicone (siliconomas), inflamação e alterações palpáveis.
O tratamento é cirúrgico — remoção do implante, da cápsula e do silicone extravasado.
Monitoramento
A FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos recomenda que mulheres com implantes de silicone realizem ressonância magnética ou ultrassonografia das mamas 5 a 6 anos após a colocação e a cada 2 a 3 anos subsequentemente, especificamente para avaliação da integridade dos implantes.
No Brasil, essa recomendação tem sido progressivamente adotada.
Contratura capsular: o que é?
A contratura capsular é a complicação mais comum dos implantes mamários.
Ocorre quando a cápsula fibrosa que o corpo forma naturalmente ao redor do implante se contrai excessivamente, comprimindo a prótese e causando endurecimento, dor e deformidade da mama.
A contratura capsular é classificada pela escala de Baker em quatro graus:
-
Grau I: mama macia e com aspecto natural;
-
Grau II: leve endurecimento, porém aparência normal;
-
Grau III: endurecimento significativo e deformidade visível;
-
Grau IV: endurecimento severo, dor e deformidade importante.
Graus III e IV geralmente requerem tratamento cirúrgico — capsulectomia (remoção da cápsula) com troca ou remoção do implante.
A incidência de contratura capsular significativa varia entre 5% e 15% ao longo de 10 anos, sendo maior em pacientes submetidas à radioterapia.
Doença do implante mamário (BII): o que sabemos?
A doença do implante mamário (BII — Breast Implant Illness) é um termo utilizado para descrever um conjunto de sintomas sistêmicos que algumas mulheres atribuem aos seus implantes mamários.
Os sintomas mais relatados incluem fadiga crônica, dores articulares e musculares, nevoeiro mental (dificuldade de concentração), queda de cabelo, erupções cutâneas e sintomas autoimunes inespecíficos.
É importante abordar este tema com honestidade e respeito.
A BII não é reconhecida como uma entidade diagnóstica formal pela maioria das sociedades médicas, e os estudos disponíveis não demonstram uma relação causal consistente entre implantes mamários e esses sintomas sistêmicos.
Entretanto, os relatos são reais e numerosos.
Muitas mulheres relatam melhora significativa dos sintomas após a remoção dos implantes (explante).
Essa observação clínica não pode ser ignorada, mesmo que os mecanismos não sejam completamente compreendidos.
A posição médica equilibrada é a seguinte: se uma paciente apresenta sintomas sistêmicos persistentes e inexplicáveis na presença de implantes mamários, a possibilidade de relação com as próteses deve ser discutida abertamente.
A remoção dos implantes pode ser considerada como parte da investigação, especialmente quando outras causas foram excluídas.
A decisão deve ser compartilhada, informada e livre de julgamento.
Quando trocar a prótese de silicone?
Não existe uma regra fixa que determine a troca obrigatória de implantes a cada determinado número de anos.
A orientação atual é que a troca seja indicada quando houver complicação (ruptura, contratura capsular, infecção, malposição), quando houver alteração no resultado estético que incomode a paciente, ou quando o acompanhamento por imagem detectar alterações que justifiquem a intervenção.
Implantes modernos são projetados para durar muitos anos — frequentemente mais de 15 a 20 anos — sem necessidade de intervenção.
Entretanto, a prótese de silicone não é um dispositivo vitalício.
O acompanhamento regular com o cirurgião permite identificar precocemente qualquer alteração que indique necessidade de troca.
Perguntas frequentes sobre prótese de silicone e câncer
Prótese de silicone causa câncer de mama?
Não. Não existe associação entre implantes de silicone e aumento do risco de câncer de mama. Mulheres com próteses desenvolvem câncer de mama na mesma proporção que mulheres sem implantes.
O que é BIA-ALCL?
É um tipo raro de linfoma (não câncer de mama) que pode se desenvolver na cápsula ao redor do implante. É extremamente raro, mais associado a implantes texturizados, e tem excelente prognóstico quando diagnosticado precocemente e tratado com cirurgia adequada.
Prótese de silicone atrapalha a mamografia?
Não impede o exame, mas requer técnica específica (manobra de Eklund). A prótese pode obscurecer uma pequena porção do tecido mamário. Ultrassonografia complementar é frequentemente recomendada.
Com que frequência devo trocar minha prótese?
Não existe prazo fixo obrigatório. A troca é indicada quando há complicação ou alteração detectada no acompanhamento. Implantes modernos podem durar mais de 15 a 20 anos. O acompanhamento regular é fundamental.
Quais os sinais de alerta com prótese de silicone?
Aumento repentino do volume de uma mama, endurecimento progressivo, dor nova e persistente, mudança no formato ou assimetria nova. Esses sinais devem ser avaliados pelo cirurgião.
O que é a doença do implante mamário (BII)?
É um conjunto de sintomas sistêmicos (fadiga, dores, nevoeiro mental) que algumas mulheres atribuem aos implantes. Não é formalmente reconhecida como entidade diagnóstica, mas os relatos são reais. A remoção dos implantes pode ser considerada quando outras causas foram excluídas.
A prótese de silicone interfere na detecção do câncer?
A prótese pode reduzir discretamente a sensibilidade da mamografia. Exames complementares (ultrassonografia, ressonância) minimizam essa limitação. A mamografia deve ser mantida normalmente.
Dr. Wesley Andrade · CRM 122593/SP
Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia
Rua Pamplona 145, Sala 1412, Jardim Paulista — São Paulo/SP
drwesleyandrade.com.br · Instagram: @dr.wesleyandrade

