Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia
Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — São Paulo, Brasil
Revisado em: Maio de 2026
Tempo de leitura: 13 minutos
O que são terapias-alvo e imunoterapia?
O tratamento do câncer de mama passou por uma transformação profunda nas últimas duas décadas. Além da quimioterapia convencional — que atua de forma ampla contra células em divisão rápida —, surgiram duas classes de medicamentos que mudaram o paradigma do tratamento: as terapias-alvo e a imunoterapia.
Terapias-alvo são medicamentos que atuam sobre alvos moleculares específicos presentes nas células tumorais ou em seu microambiente. Elas “miram” em proteínas, receptores ou vias de sinalização que são essenciais para o crescimento do tumor, bloqueando-as de forma seletiva. Essa seletividade resulta em maior eficácia contra o tumor e, frequentemente, menor toxicidade sistêmica em comparação com a quimioterapia convencional.
Imunoterapia é uma abordagem que não ataca diretamente o tumor. Em vez disso, ela estimula ou desbloqueia o sistema imunológico do próprio corpo para reconhecer e destruir as células cancerosas. O câncer de mama, historicamente considerado um tumor pouco imunogênico, passou a se beneficiar da imunoterapia em subtipos específicos — especialmente o triplo-negativo.
Terapia anti-HER2: a revolução que começou nos anos 2000
O HER2 (Human Epidermal Growth Factor Receptor 2) é uma proteína que, quando superexpressa na superfície das células tumorais, estimula o crescimento acelerado do câncer. Aproximadamente 15% a 20% dos cânceres de mama são HER2-positivos.
Antes do advento da terapia anti-HER2, os tumores HER2-positivos eram associados a prognóstico desfavorável — crescimento rápido, alta taxa de recidiva e menor sobrevida. A introdução dos medicamentos anti-HER2 transformou esse cenário de forma histórica.
Trastuzumabe (Herceptin)
O trastuzumabe é um anticorpo monoclonal que se liga ao receptor HER2 e bloqueia sua ação, além de recrutar o sistema imunológico para destruir as células tumorais. Aprovado em 1998, foi o primeiro medicamento a demonstrar que a terapia-alvo poderia mudar o prognóstico de um subtipo de câncer de mama.
Estudos como o HERA e o NSABP B-31 demonstraram que o trastuzumabe adjuvante (após a cirurgia) reduz o risco de recidiva em aproximadamente 50% e o risco de morte em cerca de 30% em tumores HER2-positivos. É administrado por via endovenosa ou subcutânea, por um período de 12 meses.
Pertuzumabe (Perjeta)
O pertuzumabe é outro anticorpo monoclonal que se liga a uma região diferente do receptor HER2, bloqueando a dimerização (ativação) do receptor. Quando combinado com o trastuzumabe, os dois anticorpos atuam de forma complementar, resultando em um bloqueio mais completo da via HER2.
O estudo CLEOPATRA demonstrou que a combinação de trastuzumabe, pertuzumabe e quimioterapia na doença metastática HER2-positiva aumentou a sobrevida mediana para mais de 56 meses — um resultado sem precedentes. No cenário neoadjuvante, o estudo NeoSphere demonstrou taxas de resposta patológica completa superiores a 45% com o duplo bloqueio.
T-DM1 — Trastuzumabe entansina (Kadcyla)
O T-DM1 é um conjugado anticorpo-droga (ADC) que combina o trastuzumabe com um agente quimioterápico potente (emtansina/DM1). O anticorpo direciona a quimioterapia diretamente para as células HER2-positivas, minimizando a exposição dos tecidos saudáveis.
O T-DM1 é utilizado no tratamento adjuvante de pacientes HER2-positivas que não alcançaram resposta patológica completa após quimioterapia neoadjuvante com trastuzumabe (estudo KATHERINE), e no tratamento de doença metastática após falha de trastuzumabe e pertuzumabe.
T-DXd — Trastuzumabe deruxtecana (Enhertu)
O trastuzumabe deruxtecana é um ADC de nova geração com potência significativamente maior que o T-DM1. Seu diferencial é a capacidade de liberar o agente quimioterápico não apenas dentro da célula-alvo, mas também nas células vizinhas — o chamado efeito bystander.
O estudo DESTINY-Breast03 demonstrou superioridade do T-DXd sobre o T-DM1 na doença metastática HER2-positiva previamente tratada, com taxas de resposta objetiva superiores a 79%.
O estudo DESTINY-Breast04 expandiu a indicação do T-DXd para tumores com baixa expressão de HER2 (HER2-low) — uma categoria que compreende cerca de 50% a 60% dos cânceres de mama anteriormente classificados como HER2-negativos. Essa descoberta criou uma nova categoria terapêutica e ampliou significativamente o número de pacientes elegíveis para terapia anti-HER2.
Inibidores de CDK4/6: a revolução nos tumores luminais
Os inibidores de CDK4/6 — palbociclibe (Ibrance), ribociclibe (Kisqali) e abemaciclibe (Verzenios) — são medicamentos que bloqueiam as quinases dependentes de ciclina 4 e 6, enzimas essenciais para a progressão do ciclo celular. Ao inibi-las, impedem a divisão celular tumoral.
Esses medicamentos transformaram o tratamento do câncer de mama metastático com receptores hormonais positivos e HER2-negativo — o subtipo luminal, que é o mais comum.
O estudo PALOMA-3 (palbociclibe), o MONALEESA-3 (ribociclibe) e o MONARCH-2 (abemaciclibe) demonstraram que a combinação de inibidores de CDK4/6 com hormonioterapia duplica a sobrevida livre de progressão na doença metastática, comparada à hormonioterapia isolada. O MONALEESA-3 e o MONALEESA-7 demonstraram também ganho de sobrevida global.
O abemaciclibe (estudo monarchE) foi o primeiro inibidor de CDK4/6 a demonstrar benefício no cenário adjuvante — ou seja, após a cirurgia, em pacientes com tumores luminais de alto risco, reduzindo significativamente o risco de recidiva.
Imunoterapia no câncer de mama
O câncer de mama triplo-negativo — que não expressa receptores de estrogênio, progesterona ou HER2 — foi historicamente o subtipo com menores opções terapêuticas além da quimioterapia. A imunoterapia mudou esse cenário.
Pembrolizumabe (Keytruda)
O pembrolizumabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia o receptor PD-1, uma proteína que funciona como “freio” do sistema imunológico. Ao bloquear o PD-1, o pembrolizumabe “solta o freio”, permitindo que os linfócitos T reconheçam e ataquem as células tumorais.
O estudo KEYNOTE-522 demonstrou que a adição de pembrolizumabe à quimioterapia neoadjuvante em tumores triplo-negativos em estágio inicial aumentou significativamente a taxa de resposta patológica completa (de 51% para 63%) e reduziu o risco de recidiva. O pembrolizumabe foi o primeiro imunoterápico aprovado para o câncer de mama em estágio inicial.
Na doença metastática triplo-negativa, o pembrolizumabe combinado com quimioterapia demonstrou benefício em pacientes cujos tumores expressam PD-L1 (estudo KEYNOTE-355).
Sacituzumabe govitecana (Trodelvy)
O sacituzumabe govitecana é um ADC que combina um anticorpo anti-Trop-2 com um agente quimioterápico (SN-38). O Trop-2 é uma proteína expressa na superfície de diversos tumores sólidos, incluindo a maioria dos cânceres de mama triplo-negativos.
O estudo ASCENT demonstrou que o sacituzumabe govitecana melhorou significativamente a sobrevida em pacientes com triplo-negativo metastático previamente tratado, estabelecendo uma nova opção terapêutica para essa população.
Inibidores de PARP: tratamento direcionado para mutações BRCA
Os inibidores de PARP — olaparibe (Lynparza) e talazoparibe (Talzenna) — são medicamentos que exploram uma vulnerabilidade específica das células tumorais com mutações nos genes BRCA1 e BRCA2. Essas células já possuem um defeito no reparo do DNA. Ao inibir a PARP (outra enzima de reparo), o medicamento impede que as células tumorais reparem seus danos genéticos, levando à morte celular.
O estudo OlympiA demonstrou que o olaparibe adjuvante reduz o risco de recidiva em pacientes com câncer de mama HER2-negativo e mutação germinativa em BRCA, com benefício em sobrevida global confirmado no seguimento de longo prazo. Na doença metastática, tanto o olaparibe (OlympiAD) quanto o talazoparibe (EMBRACA) demonstraram benefício em pacientes com mutação BRCA.
O futuro do tratamento do câncer de mama
A oncologia mamária está em rápida evolução. Novos alvos terapêuticos, novas combinações de medicamentos e abordagens cada vez mais personalizadas estão em desenvolvimento.
Tendências que devem impactar o tratamento nos próximos anos incluem a expansão da categoria HER2-low e o desenvolvimento de ADCs para HER2-ultralow; novas combinações de imunoterapia para tumores triplo-negativos e luminais; terapia baseada em DNA tumoral circulante (biópsia líquida) para detecção precoce de recidiva e ajuste terapêutico em tempo real; conjugados anticorpo-droga de próxima geração com maior especificidade e menor toxicidade; e integração de inteligência artificial na análise de perfis moleculares para personalização do tratamento.
Perguntas frequentes sobre imunoterapia e terapias-alvo
O que são terapias-alvo no câncer de mama?
São medicamentos que atuam sobre alvos moleculares específicos das células tumorais, como o receptor HER2, as quinases CDK4/6 ou a enzima PARP. São mais seletivos que a quimioterapia convencional e frequentemente causam menos efeitos colaterais sistêmicos.
O que é imunoterapia para câncer de mama?
É um tratamento que estimula o sistema imunológico do corpo a reconhecer e destruir as células tumorais. No câncer de mama, o principal imunoterápico é o pembrolizumabe, utilizado em tumores triplo-negativos.
Todo câncer de mama pode ser tratado com imunoterapia?
Não. Atualmente, a imunoterapia tem indicação estabelecida principalmente para o câncer de mama triplo-negativo. Tumores luminais e HER2-positivos são tratados com hormonioterapia e terapia anti-HER2, respectivamente.
O que é HER2-low?
É uma categoria de tumores que expressam baixos níveis de HER2 — anteriormente classificados como HER2-negativos. Esses tumores podem se beneficiar do trastuzumabe deruxtecana (Enhertu), ampliando significativamente as opções terapêuticas.
O que são inibidores de CDK4/6?
São medicamentos (palbociclibe, ribociclibe, abemaciclibe) que bloqueiam enzimas essenciais para a divisão celular. São utilizados em combinação com hormonioterapia no tratamento de tumores luminais metastáticos e, no caso do abemaciclibe, também no cenário adjuvante de alto risco.
Os inibidores de PARP funcionam para todos os pacientes?
Não. Os inibidores de PARP (olaparibe, talazoparibe) são indicados especificamente para pacientes com mutações germinativas nos genes BRCA1 ou BRCA2. A identificação da mutação por teste genético é pré-requisito para a indicação.
Esses tratamentos novos substituem a quimioterapia?
Em alguns cenários, sim — como nos tumores luminais de baixo risco, onde hormonioterapia com inibidores de CDK4/6 pode ser suficiente. Em outros, são utilizados em combinação com a quimioterapia para potencializar os resultados. A tendência é a personalização do tratamento com base no perfil molecular de cada tumor.
Dr. Wesley Andrade · CRM 122593/SP
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