Mastectomia Profilática (Redutora de Risco): Quando É Indicada e Como É Feita

Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia · Desenvolvedor do TNM8 Breast Cancer Calculator (licenciado pela AJCC)

Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — Rua Pamplona 145, Sala 1412, Jardim Paulista, São Paulo/SP

Revisado em: Junho de 2026

Tempo de leitura: 14 minutos

O que é a mastectomia profilática?

A mastectomia profilática — também chamada de mastectomia redutora de risco — é a remoção cirúrgica preventiva do tecido mamário em mulheres que ainda não têm câncer de mama, mas que apresentam risco muito elevado de desenvolvê-lo. O objetivo não é tratar um câncer existente, mas prevenir o seu aparecimento.

Essa é uma decisão médica de grande magnitude, que envolve considerações oncológicas, cirúrgicas, estéticas, reprodutivas e, sobretudo, emocionais. Não é uma cirurgia indicada para a maioria das mulheres — é reservada para situações específicas de alto risco, e a decisão é sempre profundamente individual.

A mastectomia profilática ganhou notoriedade mundial quando a atriz Angelina Jolie, portadora de mutação no gene BRCA1, revelou em 2013 ter se submetido à cirurgia preventiva. Seu depoimento trouxe o tema para o debate público e ajudou muitas mulheres a compreenderem que, diante de um risco genético elevado, existem opções — e que a escolha é pessoal.

Como mastologista e cirurgião oncológico, minha função nesse contexto é oferecer informação completa, apresentar todas as alternativas, respeitar a autonomia da paciente e, quando a cirurgia é a opção escolhida, realizá-la com a melhor técnica e o melhor resultado possível.

Quem tem indicação de mastectomia profilática?

A mastectomia profilática é considerada em situações de risco muito elevado de câncer de mama. As principais indicações incluem as seguintes.

Portadoras de mutações genéticas de alto risco

Mulheres com mutações patogênicas nos genes BRCA1, BRCA2, PALB2, TP53 (síndrome de Li-Fraumeni) e PTEN (síndrome de Cowden) têm risco de câncer de mama ao longo da vida que pode variar de 45% a mais de 80%, dependendo do gene. Para essas mulheres, a mastectomia redutora de risco reduz a probabilidade de câncer de mama em mais de 90% — sendo a intervenção mais eficaz de redução de risco disponível.

História familiar muito forte

Mulheres com história familiar significativa de câncer de mama — múltiplos parentes de primeiro grau acometidos, especialmente em idade jovem — mesmo sem mutação genética identificada, podem ter risco elevado o suficiente para considerar a cirurgia redutora, após avaliação criteriosa.

Lesões de alto risco associadas a outros fatores

Certas lesões mamárias (como o carcinoma lobular in situ associado a outros fatores de risco) ou a combinação de fatores de risco significativos podem, em casos selecionados, motivar a discussão sobre mastectomia redutora.

Radioterapia torácica prévia na juventude

Mulheres que receberam radioterapia no tórax durante a infância ou adolescência (por exemplo, no tratamento de linfoma de Hodgkin) têm risco muito elevado de câncer de mama e podem ser candidatas à avaliação para cirurgia redutora.

É fundamental destacar: a indicação de mastectomia profilática exige avaliação especializada e criteriosa. Não é uma decisão a ser tomada por impulso ou medo, mas sim após aconselhamento genético, cálculo de risco individualizado e discussão detalhada de todas as opções.

Mastectomia profilática vs. vigilância intensificada

Antes de considerar a cirurgia, é essencial entender que a mastectomia profilática não é a única opção para mulheres de alto risco. A alternativa é a vigilância intensificada — um programa de rastreamento rigoroso que visa detectar precocemente um eventual câncer.

A vigilância intensificada inclui exame clínico periódico, ressonância magnética das mamas anual (a partir dos 25 anos nas portadoras BRCA), mamografia anual (geralmente a partir dos 30 anos) e autoconhecimento mamário.

A diferença fundamental entre as duas abordagens é a seguinte: a vigilância intensificada não previne o câncer — ela busca detectá-lo precocemente, quando as chances de cura são maiores. A mastectomia profilática, por outro lado, previne o câncer, reduzindo o risco em mais de 90%.

Ambas as abordagens são válidas e legítimas. A escolha entre elas depende do grau de risco, da idade, do planejamento reprodutivo, da tolerância pessoal ao risco e do impacto emocional de conviver com um risco elevado. Algumas mulheres preferem a segurança da maior redução de risco possível; outras preferem preservar suas mamas e manter vigilância rigorosa. Não há resposta certa ou errada — há a resposta certa para cada mulher.

Como é feita a mastectomia profilática?

A mastectomia profilática moderna é muito diferente da mastectomia radical do passado. As técnicas atuais permitem a remoção do tecido mamário com preservação máxima da pele e, na maioria dos casos, do complexo aréolo-papilar (aréola e mamilo) — com reconstrução imediata que oferece resultado estético excelente.

Adenomastectomia (mastectomia com preservação de mamilo)

A técnica preferida para a mastectomia profilática é a adenomastectomia, também chamada de nipple-sparing mastectomy. Nessa técnica, todo o tecido glandular mamário é removido, mas a pele, a aréola e o mamilo são preservados. Isso permite uma reconstrução com aparência muito natural, mantendo o “envelope” cutâneo da mama e o complexo aréolo-papilar.

Como não há câncer presente (é uma cirurgia preventiva), a preservação do mamilo é oncologicamente segura na grande maioria dos casos, tornando a adenomastectomia a escolha ideal para a mastectomia profilática.

Reconstrução imediata

A reconstrução mamária é realizada na mesma cirurgia da mastectomia profilática. As opções incluem reconstrução com implante de silicone (em plano pré-peitoral ou retropeitoral, frequentemente com o auxílio de matrizes dérmicas) e reconstrução com tecido autólogo (retalhos como TRAM, DIEP ou grande dorsal), utilizada em casos selecionados conforme a preferência e a anatomia da paciente.

Como a pele e o mamilo são preservados na adenomastectomia, a reconstrução profilática costuma oferecer resultados estéticos superiores aos da reconstrução após mastectomia por câncer — pois não há necessidade de remover pele nem de lidar com tecidos irradiados.

A cirurgia elimina completamente o risco de câncer?

Esta é uma pergunta importante e que merece resposta honesta. A mastectomia profilática reduz o risco de câncer de mama em mais de 90% — mas não o elimina completamente (100%).

Isso ocorre porque é tecnicamente impossível remover 100% das células mamárias durante a cirurgia. Pequenas quantidades de tecido mamário podem permanecer, especialmente próximas à pele e ao mamilo. Por isso, existe um risco residual muito pequeno de câncer mesmo após a cirurgia.

Ainda assim, uma redução de risco superior a 90% é extraordinariamente significativa — transforma um risco que poderia ser de 70% ou 80% em um risco de poucos por cento. Para muitas portadoras de mutação, essa redução representa uma mudança profunda na sua relação com o medo do câncer.

Após a mastectomia profilática, o acompanhamento continua, embora com menos exames de imagem, focando no exame clínico e na atenção a qualquer alteração.

A decisão emocional: o peso de uma escolha preventiva

A mastectomia profilática é, talvez, uma das decisões mais complexas que uma mulher pode enfrentar na área da saúde. Diferentemente de uma cirurgia para tratar uma doença existente, aqui a mulher está saudável — e escolhe uma cirurgia de grande porte para prevenir algo que pode nunca acontecer.

Essa decisão envolve questões profundas: a relação com o próprio corpo e a feminilidade, o medo do câncer que muitas vezes acompanha a mulher desde que viu familiares adoecerem, o planejamento reprodutivo e a amamentação, o impacto na sexualidade e na autoimagem, e o peso psicológico de conviver com um risco elevado.

Por isso, o processo de decisão deve incluir não apenas a avaliação médica e o aconselhamento genético, mas também o suporte psicológico. Muitas mulheres se beneficiam de conversar com psicólogos especializados e com outras mulheres que passaram pela mesma experiência.

Como Angelina Jolie fez questão de enfatizar em seu relato: a decisão é pessoal, não prescritiva. Não existe obrigação de operar. O papel do médico é informar, apoiar e respeitar — nunca pressionar. A escolha final é, e deve ser, da mulher.

Salpingo-ooforectomia: a remoção dos ovários

Para portadoras de mutações BRCA, além da mastectomia, frequentemente se discute a salpingo-ooforectomia redutora de risco — a remoção preventiva dos ovários e das trompas. Isso porque as mutações BRCA aumentam também o risco de câncer de ovário, para o qual não existe rastreamento eficaz.

A remoção dos ovários e trompas é geralmente recomendada após a conclusão do planejamento reprodutivo, entre os 35 e 45 anos, dependendo do gene (mais cedo para BRCA1, um pouco mais tarde para BRCA2). Além de reduzir drasticamente o risco de câncer de ovário, a cirurgia realizada antes da menopausa também contribui para reduzir o risco de câncer de mama.

Essa é uma decisão separada da mastectomia, com suas próprias implicações (menopausa cirúrgica, fim da fertilidade), e deve ser discutida com o mastologista e o ginecologista.

Perguntas frequentes sobre mastectomia profilática

O que é mastectomia profilática?

É a remoção cirúrgica preventiva do tecido mamário em mulheres de alto risco que ainda não têm câncer, com o objetivo de prevenir a doença. Reduz o risco de câncer de mama em mais de 90%. É reservada para situações específicas de risco muito elevado.

Quem deve fazer mastectomia profilática?

Principalmente portadoras de mutações genéticas de alto risco (BRCA1, BRCA2, PALB2, TP53, PTEN), mulheres com história familiar muito forte, e mulheres que receberam radioterapia torácica na juventude. A indicação exige aconselhamento genético e avaliação criteriosa.

A mastectomia profilática é obrigatória se eu tiver mutação BRCA?

Não. É uma opção, não uma obrigação. A alternativa é a vigilância intensificada (ressonância e mamografia anuais). A escolha é pessoal e depende do risco individual, da idade, do planejamento reprodutivo e dos valores de cada mulher.

A cirurgia elimina 100% do risco de câncer?

Não. Reduz o risco em mais de 90%, mas não o elimina completamente, pois é impossível remover todas as células mamárias. O risco residual é muito pequeno. Ainda assim, a redução é extraordinariamente significativa.

Como fica a mama depois da mastectomia profilática?

A técnica moderna (adenomastectomia) preserva a pele, a aréola e o mamilo, com reconstrução imediata. O resultado estético costuma ser excelente — frequentemente superior ao da reconstrução após câncer, pois não há tecido irradiado nem necessidade de remover pele.

Posso preservar o mamilo na cirurgia?

Sim. Como a mastectomia profilática é preventiva (sem câncer presente), a preservação do mamilo (adenomastectomia) é oncologicamente segura na maioria dos casos, sendo a técnica preferida.

Vou perder a sensibilidade da mama?

A sensibilidade da mama e do mamilo geralmente é reduzida após a mastectomia, mesmo com preservação do mamilo, pois os nervos são afetados. Esse é um dos aspectos a considerar na decisão.

Preciso remover os ovários também?

Para portadoras BRCA, discute-se também a remoção preventiva de ovários e trompas, pois essas mutações aumentam o risco de câncer de ovário. É uma decisão separada, geralmente após a conclusão do planejamento reprodutivo. Deve ser discutida com o mastologista e o ginecologista.

Dr. Wesley Andrade é mastologista e cirurgião oncológico em São Paulo, com Mestrado e Doutorado em Oncologia. É desenvolvedor do TNM8 Breast Cancer Calculator, aplicativo para estadiamento do câncer de mama licenciado pela AJCC e apresentado no ASCO Annual Meeting 2018. Atende em consultório particular no Jardim Paulista e realiza cirurgias nos principais hospitais de São Paulo.

Clínica Dr. Wesley Andrade · Rua Pamplona 145, Sala 1412, Jardim Paulista — São Paulo/SP

drwesleyandrade.com.br · Instagram: @dr.wesleyandrade

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