Preservação da Fertilidade no Câncer de Mama: Como Ter Filhos Após o Tratamento

Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia · Desenvolvedor do TNM8 Breast Cancer Calculator (licenciado pela AJCC)

Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — Rua Pamplona 145, Sala 1412, Jardim Paulista, São Paulo/SP

Revisado em: Junho de 2026

Tempo de leitura: 12 minutos


Câncer de mama e fertilidade: por que esse tema importa

O diagnóstico de câncer de mama em mulheres jovens — abaixo de 40 anos — traz, além da preocupação com o tratamento, uma questão profundamente humana: a possibilidade de ter filhos no futuro. Aproximadamente 7% dos cânceres de mama no Brasil são diagnosticados em mulheres com menos de 40 anos, muitas das quais ainda não constituíram família ou desejam ampliá-la.

O problema é que vários tratamentos do câncer de mama podem comprometer a fertilidade. A quimioterapia, em particular, pode danificar os óvulos e levar à falência ovariana precoce. A hormonioterapia, embora não destrua os óvulos, exige anos de tratamento durante os quais a gravidez é contraindicada — e esse tempo, somado à idade, pode reduzir a reserva ovariana.

A boa notícia é que existem estratégias eficazes de preservação da fertilidade — e que a gravidez após o tratamento do câncer de mama é segura e possível. A chave está em discutir a preservação da fertilidade antes de iniciar o tratamento, idealmente no momento do diagnóstico.

Por isso, toda mulher jovem diagnosticada com câncer de mama deve ter acesso à informação e ao encaminhamento para um especialista em reprodução assistida antes de começar a quimioterapia ou a hormonioterapia. Esse é um direito da paciente e um componente do cuidado oncológico integral.


Como o tratamento do câncer afeta a fertilidade?

Quimioterapia

A quimioterapia é o tratamento que mais impacta a fertilidade. Os agentes quimioterápicos — especialmente os alquilantes, como a ciclofosfamida — danificam os folículos ovarianos, onde os óvulos amadurecem. Esse dano pode levar à amenorreia (interrupção da menstruação) temporária ou permanente e à falência ovariana precoce.

O grau de impacto depende de diversos fatores, como:

  • Idade da paciente (quanto mais velha, maior o risco de falência permanente, pois a reserva ovariana já é menor);
  • Tipo dos quimioterápicos utilizados;
  • Dose administrada;
  • Reserva ovariana antes do tratamento.

Mulheres abaixo de 35 anos têm maior probabilidade de recuperar a função ovariana após a quimioterapia do que mulheres acima de 40 anos. Mas, mesmo quando a menstruação retorna, a reserva ovariana pode estar reduzida, diminuindo a janela de tempo para uma gravidez.

Hormonioterapia

A hormonioterapia (tamoxifeno ou inibidores de aromatase) não destrói os óvulos, mas tem dois impactos importantes na fertilidade.

Primeiro, a gravidez é contraindicada durante o uso desses medicamentos, pois eles podem causar malformações fetais.

Segundo, como a hormonioterapia é mantida por 5 a 10 anos, a paciente precisa adiar a gravidez por esse período, e o avanço da idade reduz naturalmente a fertilidade.

O estudo POSITIVE (2023) trouxe uma evidência importante: pacientes com tumores hormonais positivos podem interromper temporariamente a hormonioterapia (após pelo menos 18 a 30 meses de uso) para engravidar, sem aumento significativo do risco de recidiva a curto prazo, retomando o tratamento após a gestação.

Essa descoberta ampliou as possibilidades reprodutivas para mulheres jovens com câncer de mama hormonal.


Métodos de preservação da fertilidade

Existem diferentes estratégias de preservação da fertilidade, escolhidas conforme a idade da paciente, o tempo disponível antes do início do tratamento, o status do parceiro e as preferências individuais.

Criopreservação de óvulos (congelamento de óvulos)

É o método mais utilizado para mulheres que não têm parceiro ou que preferem não criar embriões.

Consiste na estimulação ovariana com medicamentos hormonais por cerca de 10 a 14 dias, seguida da coleta dos óvulos maduros por punção transvaginal guiada por ultrassom.

Os óvulos são então congelados (vitrificação) e armazenados para uso futuro.

Quando a paciente desejar engravidar, os óvulos são descongelados, fertilizados em laboratório (fertilização in vitro) e os embriões resultantes são transferidos para o útero.

Criopreservação de embriões (congelamento de embriões)

Para mulheres com parceiro ou que optam por utilizar sêmen de doador, os óvulos coletados após a estimulação ovariana são fertilizados imediatamente, e os embriões resultantes são congelados.

As taxas de sucesso com embriões congelados são bem estabelecidas e ligeiramente superiores às dos óvulos congelados.

Estimulação ovariana em pacientes com câncer hormonal

Uma preocupação específica em pacientes com câncer de mama hormonal positivo é que a estimulação ovariana eleva os níveis de estrogênio, o que teoricamente poderia estimular o tumor.

Para contornar isso, protocolos especiais utilizam letrozol (inibidor de aromatase) associado às gonadotrofinas, mantendo os níveis de estrogênio mais baixos durante a estimulação.

Esses protocolos são considerados seguros e permitem a preservação da fertilidade mesmo em tumores hormonais.

Supressão ovariana durante a quimioterapia

O uso de análogos do GnRH (goserrelina) durante a quimioterapia induz uma “pausa” temporária na função ovariana, com o objetivo de proteger os ovários do dano causado pelos quimioterápicos.

Embora a evidência sobre sua eficácia ainda seja debatida, estudos como o POEMS sugerem que essa estratégia pode reduzir o risco de falência ovariana e aumentar as chances de gravidez futura.

É uma opção complementar — não substitui a criopreservação — e apresenta a vantagem de não atrasar o início da quimioterapia.

Criopreservação de tecido ovariano

Método mais recente, indicado especialmente quando não há tempo para a estimulação ovariana (quando a quimioterapia precisa começar imediatamente) ou em meninas pré-púberes.

Consiste na remoção cirúrgica de fragmentos do tecido ovariano (que contém folículos imaturos), seu congelamento e posterior reimplante após o tratamento.

É uma técnica em evolução, com resultados bastante promissores.


O timing é tudo: por que decidir antes do tratamento

O ponto mais crítico da preservação da fertilidade é o tempo.

A maioria dos métodos — especialmente a criopreservação de óvulos e de embriões — exige estimulação ovariana, que leva de 10 a 14 dias.

Isso significa que a preservação da fertilidade precisa ser discutida e iniciada antes do começo da quimioterapia.

Felizmente, na maioria dos casos de câncer de mama, existe um intervalo seguro de 2 a 4 semanas entre o diagnóstico e o início do tratamento sistêmico, tempo suficiente para realizar um ciclo de estimulação e coleta de óvulos sem comprometer o prognóstico oncológico.

Protocolos modernos de random start (início aleatório) permitem iniciar a estimulação ovariana em qualquer fase do ciclo menstrual, agilizando o processo e evitando atrasos.

A coordenação entre o mastologista, o oncologista clínico e o especialista em reprodução assistida é essencial para garantir que a preservação da fertilidade ocorra sem atrasar o tratamento do câncer.


Gravidez após o câncer de mama é segura?

Esta é uma das perguntas mais importantes — e a resposta, baseada em evidência, é tranquilizadora: sim.

A gravidez após o tratamento do câncer de mama é segura e não aumenta o risco de recidiva.

Múltiplos estudos demonstraram que mulheres que engravidam após o tratamento não apresentam pior prognóstico do que aquelas que não engravidam. Alguns estudos sugerem até um possível efeito protetor.

O estudo POSITIVE, publicado em 2023, foi um marco ao avaliar mulheres com câncer de mama hormonal positivo que interromperam temporariamente a hormonioterapia para engravidar.

Os resultados demonstraram que essa interrupção temporária (após 18 a 30 meses de tratamento) para tentativa de gravidez não aumentou o risco de recidiva a curto prazo.

Quando engravidar?

O momento ideal para a gravidez após o câncer de mama deve ser individualizado e depende de fatores como:

  • Risco de recidiva do tumor (geralmente recomenda-se aguardar pelo menos 2 anos após o diagnóstico);
  • Tipo de tratamento realizado;
  • Duração da hormonioterapia (nos tumores hormonais positivos, a pausa segue os critérios do estudo POSITIVE).

A decisão deve ser tomada em conjunto com o oncologista, considerando o desejo reprodutivo da paciente e o perfil de risco do tumor.


Perguntas frequentes sobre fertilidade e câncer de mama

O tratamento do câncer de mama causa infertilidade?

A quimioterapia pode danificar os óvulos e causar falência ovariana, especialmente em mulheres acima de 35 anos. A hormonioterapia não destrói os óvulos, mas exige adiar a gravidez por 5 a 10 anos. Por isso, a preservação da fertilidade deve ser discutida antes do tratamento.

Como preservar a fertilidade antes do tratamento?

Os principais métodos são:

  • Criopreservação de óvulos;
  • Criopreservação de embriões;
  • Criopreservação de tecido ovariano.

A escolha depende da idade, do tempo disponível e da situação da paciente. O processo deve ser iniciado antes da quimioterapia.

Quanto tempo leva a preservação da fertilidade?

A criopreservação de óvulos ou embriões exige cerca de 10 a 14 dias de estimulação ovariana.

Como geralmente existe um intervalo seguro de 2 a 4 semanas entre o diagnóstico e o início do tratamento, costuma ser possível realizar a preservação sem atrasar a quimioterapia.

A estimulação ovariana é segura para câncer de mama hormonal?

Sim.

Protocolos especiais utilizam letrozol associado às gonadotrofinas para manter os níveis de estrogênio baixos durante a estimulação, tornando o procedimento seguro mesmo em tumores hormonais positivos.

Posso engravidar depois do câncer de mama?

Sim.

A gravidez após o tratamento do câncer de mama é considerada segura e não aumenta o risco de recidiva.

O momento ideal deve ser definido em conjunto com o oncologista.

Posso amamentar após o câncer de mama?

Sim, pela mama não tratada.

A mama operada ou irradiada pode apresentar produção de leite reduzida.

A amamentação é contraindicada apenas durante o uso de medicamentos sistêmicos, como quimioterapia e hormonioterapia.

O que é o estudo POSITIVE?

É um estudo publicado em 2023 que demonstrou que mulheres com câncer de mama hormonal positivo podem interromper temporariamente a hormonioterapia (após 18 a 30 meses) para engravidar, sem aumento significativo do risco de recidiva a curto prazo, retomando o tratamento após a gestação.


Sobre o Dr. Wesley Andrade

O Dr. Wesley Andrade é mastologista e cirurgião oncológico em São Paulo, com Mestrado e Doutorado em Oncologia.

É desenvolvedor do TNM8 Breast Cancer Calculator, aplicativo para estadiamento do câncer de mama licenciado pela AJCC e apresentado no ASCO Annual Meeting 2018.

Atende em consultório particular no Jardim Paulista e realiza cirurgias nos principais hospitais de São Paulo.

Clínica Dr. Wesley Andrade

Rua Pamplona 145, Sala 1412, Jardim Paulista — São Paulo/SP

drwesleyandrade.com.br

Instagram: @dr.wesleyandrade

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