Cirurgia de Lesão Não Palpável da Mama: Como Funciona a Localização e a Remoção

Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia
Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — São Paulo, Brasil
Revisado em: Junho de 2026
Tempo de leitura: 12 minutos

O que é uma lesão não palpável da mama?

Uma lesão não palpável é uma alteração identificada nos exames de imagem — mamografia, ultrassonografia ou ressonância magnética — que não pode ser sentida ao toque durante o exame clínico. São lesões pequenas, profundas ou de consistência semelhante ao tecido mamário circundante, o que as torna imperceptíveis à palpação.

Com o avanço dos métodos de rastreamento mamário e a maior sensibilidade dos equipamentos de imagem, o diagnóstico de lesões não palpáveis tornou-se cada vez mais frequente. Hoje, uma parcela significativa dos cânceres de mama é diagnosticada como lesão não palpável — detectada exclusivamente pela mamografia de rotina, antes de produzir qualquer sintoma.

Esse é, na verdade, o cenário ideal: o câncer diagnosticado antes de ser palpável é geralmente pequeno, em estágio inicial, com excelente prognóstico e maiores chances de tratamento conservador. A mamografia de rotina existe exatamente para identificar essas lesões precocemente.

Quando a cirurgia de lesão não palpável é indicada?

A cirurgia de lesão não palpável é indicada em dois cenários principais.

Lesão suspeita não acessível à biópsia percutânea: quando uma lesão classificada como BI-RADS 4 ou 5 na mamografia não pode ser biopsiada por agulha — seja pela sua localização, tamanho ou tipo (como determinadas distorções arquiteturais) —, a excisão cirúrgica é indicada para obter o diagnóstico.

Lesão com diagnóstico de biópsia que exige excisão: quando a biópsia por agulha revela lesões atípicas — como hiperplasia ductal atípica (HDA), hiperplasia lobular atípica (HLA), lesão esclerosante complexa ou carcinoma in situ focal — a excisão cirúrgica pode ser necessária para avaliar a lesão integralmente e excluir a presença de carcinoma invasivo adjacente, que pode não ter sido amostrado na biópsia.

Câncer de mama não palpável confirmado por biópsia: quando a biópsia confirma carcinoma — ductal invasor, lobular invasor ou carcinoma ductal in situ — e o tumor não é palpável, a cirurgia definitiva (conservadora ou mastectomia) precisa ser guiada por um método de localização que permita ao cirurgião identificar com precisão a área a ser removida.

Técnicas de localização de lesões não palpáveis

Como o cirurgião não consegue sentir a lesão, é necessário um método de localização pré-operatória que sinalize exatamente onde a lesão está dentro da mama. Existem diferentes técnicas de localização, cada uma com vantagens e indicações específicas.

Agulhamento (fio metálico guiado)

O agulhamento — também chamado de wire localization — é a técnica mais tradicional. Um fio metálico fino com ponta em formato de anzol é inserido na mama sob guia de mamografia ou ultrassonografia, com a ponta posicionada junto à lesão ou dentro dela. O fio permanece exteriorizado através da pele até o momento da cirurgia.

O agulhamento é geralmente realizado no mesmo dia da cirurgia, no serviço de radiologia, antes da paciente ser encaminhada ao centro cirúrgico. Durante a cirurgia, o mastologista segue o trajeto do fio até a lesão e remove o tecido ao seu redor com margens adequadas.

Apesar de amplamente utilizado, o agulhamento apresenta limitações: desconforto para a paciente (o fio fica exteriorizado por horas até a cirurgia), risco de deslocamento do fio, dificuldade logística de agendamento (agulhamento e cirurgia precisam ser no mesmo dia) e limitação na flexibilidade do planejamento cirúrgico.

ROLL (Radioguided Occult Lesion Localization)

A técnica ROLL utiliza a injeção intratumoral de um radiotraçador (tecnécio-99m) sob guia de ultrassonografia ou mamografia. O radiotraçador marca a lesão com radiação de baixa energia, que pode ser detectada pelo cirurgião durante a cirurgia utilizando uma sonda de detecção gama (gamma probe) — a mesma utilizada para a biópsia do linfonodo sentinela.

A vantagem do ROLL é que não há fio exteriorizado, a marcação pode ser feita no dia anterior à cirurgia, e a detecção intraoperatória é precisa e permite ao cirurgião localizar a lesão em três dimensões.

SNOLL (Sentinel Node and Occult Lesion Localization)

O SNOLL combina a localização da lesão não palpável (ROLL) com a biópsia do linfonodo sentinela em um único procedimento — utilizando a mesma injeção de radiotraçador. É indicado quando a paciente tem câncer invasivo confirmado e necessita tanto da localização da lesão quanto da avaliação axilar.

Marcadores metálicos (sementes e refletores)

Tecnologias mais recentes utilizam dispositivos implantáveis que são posicionados na lesão dias ou semanas antes da cirurgia, eliminando a necessidade de procedimentos no mesmo dia.

Sementes radioativas (I-125): pequenas sementes de iodo radioativo são inseridas na lesão sob guia de imagem. Durante a cirurgia, o mastologista utiliza a sonda gama para localizar a semente. A semente pode ser implantada até 5 dias antes da cirurgia, oferecendo flexibilidade no agendamento.

Refletores magnéticos (Magseed): um marcador magnético miniaturizado é implantado na lesão. Durante a cirurgia, um detector magnético localiza o marcador. Pode ser implantado semanas antes da cirurgia.

Refletores por radar (SCOUT/SAVI SCOUT): um refletor de radar é implantado na lesão e localizado durante a cirurgia por um detector de radiofrequência. Também permite implantação antecipada.

Esses marcadores representam a evolução tecnológica da localização de lesões não palpáveis, oferecendo maior conforto para a paciente, flexibilidade logística e precisão cirúrgica.

Como é a cirurgia?

A cirurgia de lesão não palpável é realizada sob anestesia geral, em centro cirúrgico. Os passos são os seguintes.

Localização: o cirurgião utiliza o método de marcação escolhido (fio, ROLL, semente ou refletor) para identificar a posição exata da lesão dentro da mama.

Incisão: a incisão é planejada para permitir o melhor acesso à lesão com o menor impacto estético possível. Quando viável, utiliza-se incisão periareolar (na borda da aréola) ou no sulco mamário. Em alguns casos, a incisão é feita diretamente sobre a projeção cutânea da lesão.

Excisão: o tecido mamário ao redor da lesão é removido em bloco, com margem de tecido normal ao redor. A peça cirúrgica é enviada para radiografia intraoperatória — uma mamografia da peça removida realizada no centro cirúrgico — para confirmar que a lesão (nódulo, microcalcificações ou marcador) está contida no material excisado.

Verificação de margens: a radiografia da peça permite avaliar se as margens são aparentemente adequadas. Se a lesão estiver muito próxima de alguma borda, o cirurgião pode ampliar a ressecção na mesma cirurgia.

Biópsia do linfonodo sentinela: quando a lesão é um câncer invasivo confirmado, a biópsia do linfonodo sentinela é realizada no mesmo ato cirúrgico.

Oncoplastia: quando o volume de tecido removido é significativo, técnicas oncoplásticas podem ser utilizadas para remodelar a mama e evitar deformidades.

A duração total da cirurgia varia entre 40 minutos e 2 horas, dependendo da complexidade do caso e dos procedimentos associados.

Recuperação pós-operatória

A recuperação é semelhante à de qualquer cirurgia conservadora da mama. A paciente recebe alta hospitalar no mesmo dia ou no dia seguinte. É comum apresentar desconforto leve, equimoses e edema na mama operada, que resolvem em 1 a 2 semanas. Analgésicos comuns são suficientes para controle da dor na maioria dos casos.

Curativos são mantidos por 5 a 7 dias. Não são utilizados drenos na maioria das cirurgias de lesão não palpável. Atividades leves podem ser retomadas em 3 a 5 dias. Exercícios que envolvam braços e tórax devem ser evitados por 2 a 3 semanas.

O resultado anatomopatológico definitivo — que determina o tipo de lesão, as margens cirúrgicas e a necessidade de tratamentos complementares — é disponibilizado em 7 a 15 dias.

O que o resultado da cirurgia pode mostrar?

O exame anatomopatológico da peça cirúrgica pode revelar lesão benigna (a alteração vista na mamografia era benigna — como adenose esclerosante, fibroadenoma, papiloma). Nesse caso, nenhum tratamento adicional é necessário.

Pode revelar lesão de alto risco (hiperplasia atípica, carcinoma lobular in situ). Exige acompanhamento intensificado e discussão sobre quimioprevenção.

Pode revelar carcinoma ductal in situ (CDIS). Exige avaliação de margens, possível complementação cirúrgica, radioterapia e hormonioterapia conforme indicação.

E pode revelar carcinoma invasivo. Exige estadiamento completo, avaliação de margens, discussão sobre tratamento sistêmico (quimioterapia, hormonioterapia, terapia-alvo) e radioterapia.

Perguntas frequentes sobre cirurgia de lesão não palpável

O que é uma lesão não palpável da mama?

É uma alteração identificada na mamografia, ultrassonografia ou ressonância magnética que não pode ser sentida ao toque. Pode ser um nódulo pequeno, microcalcificações ou uma distorção do tecido mamário. Pode ser benigna ou maligna — a investigação é necessária para esclarecer.

Como o cirurgião encontra uma lesão que não é palpável?

Através de técnicas de localização pré-operatória: agulhamento (fio metálico guiado por imagem), ROLL (marcação com radiotraçador), sementes radioativas ou refletores magnéticos. Essas técnicas guiam o cirurgião até a lesão durante a cirurgia.

A cirurgia de lesão não palpável é uma cirurgia grande?

Geralmente não. É uma cirurgia conservadora, com remoção de uma porção limitada de tecido mamário. A internação costuma ser de 1 dia, e a recuperação é rápida. Em muitos serviços, é realizada em regime ambulatorial.

Lesão não palpável sempre é câncer?

Não. Muitas lesões não palpáveis são benignas. A cirurgia pode ser indicada para diagnóstico (quando a biópsia percutânea não é possível ou foi inconclusiva) ou para tratamento (quando o diagnóstico de câncer já foi confirmado).

A mamografia da peça cirúrgica é feita durante a cirurgia?

Sim. A radiografia da peça operatória é realizada no centro cirúrgico para confirmar que a lesão foi completamente removida. Isso permite ao cirurgião ampliar a ressecção imediatamente, se necessário.

A cirurgia de lesão não palpável deixa cicatriz?

A cicatriz é geralmente pequena e posicionada em local discreto — ao redor da aréola ou no sulco mamário. Com técnicas oncoplásticas, o resultado estético é muito satisfatório.

Dr. Wesley Andrade · CRM 122593/SP
Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia

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