Autor: Dr. Wesley Andrade — CRM 122593/SP · Mastologista e Cirurgião Oncológico · Mestre e Doutor em Oncologia
Instituição: Clínica Dr. Wesley Andrade — São Paulo, Brasil
Revisado em: Maio de 2026
Tempo de leitura: 11 minutos
O homem pode ter câncer de mama?
Sim. O câncer de mama masculino é uma realidade que, embora rara, existe e precisa ser conhecida.
Homens possuem tecido mamário — em quantidade muito menor que mulheres, mas suficiente para que alterações malignas possam se desenvolver.
O câncer de mama masculino representa aproximadamente 1% de todos os cânceres de mama diagnosticados e menos de 0,5% de todos os cânceres em homens. No Brasil, estima-se que ocorram cerca de 200 a 300 novos casos por ano.
A raridade do diagnóstico é, paradoxalmente, seu maior problema. Por ser incomum, o câncer de mama no homem é frequentemente desconhecido pela população masculina, subdiagnosticado pelos médicos e diagnosticado em estágios mais avançados do que em mulheres.
Estudos consistentemente mostram que o intervalo entre o surgimento dos sintomas e o diagnóstico é mais longo em homens — em média 6 a 12 meses a mais do que em mulheres.
Esse atraso diagnóstico tem consequência direta no prognóstico. Enquanto a maioria dos cânceres de mama femininos é diagnosticada em estágio I ou II, a maioria dos cânceres de mama masculinos é diagnosticada em estágio II ou III.
Fatores de risco para câncer de mama no homem
Diversos fatores aumentam o risco de câncer de mama em homens. Os mais relevantes incluem os seguintes.
Mutações genéticas — especialmente BRCA2
Mutações no gene BRCA2 conferem o maior risco conhecido de câncer de mama masculino, com risco ao longo da vida estimado entre 5% e 10%.
Mutações no BRCA1 também aumentam o risco, embora em menor grau.
Homens com histórico familiar de câncer de mama — especialmente em parentes de primeiro grau — devem ser avaliados para aconselhamento genético.
Síndrome de Klinefelter
Homens com essa condição genética (cariótipo 47,XXY) apresentam níveis elevados de estrogênio e reduzidos de testosterona, com risco de câncer de mama até 50 vezes maior que a população masculina geral.
Histórico familiar de câncer de mama
Ter mãe, irmã ou filha com câncer de mama aumenta o risco, especialmente quando o diagnóstico familiar ocorreu em idade jovem ou quando há múltiplos casos na família.
Idade avançada
A maioria dos casos de câncer de mama masculino é diagnosticada entre 60 e 70 anos, com média de idade ao diagnóstico de 67 anos.
Exposição a estrogênio
Condições que aumentam a exposição estrogênica em homens — como obesidade (o tecido adiposo produz estrogênio pela aromatase), cirrose hepática (reduz a metabolização do estrogênio), uso de estrogênio exógeno (como em mulheres transgênero em hormonioterapia feminilizante) e ginecomastia — estão associadas a risco aumentado.
Radioterapia torácica prévia
Homens que receberam radioterapia no tórax, especialmente durante a infância ou adolescência (como no tratamento de linfoma de Hodgkin), têm risco aumentado.
Sintomas do câncer de mama no homem
O sintoma mais comum é o nódulo na mama — um caroço indolor, firme e geralmente localizado atrás do mamilo ou na região periareolar.
Por ser a mama masculina pequena e com pouco tecido, o nódulo costuma ser mais facilmente palpável do que em mulheres.
Outros sinais incluem:
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Retração ou inversão do mamilo;
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Secreção pelo mamilo (especialmente sanguinolenta);
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Alteração na pele da mama (vermelhidão, espessamento, ulceração);
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Linfonodos aumentados na axila.
A principal barreira ao diagnóstico precoce é o desconhecimento.
Muitos homens não sabem que podem desenvolver câncer de mama. Quando percebem uma alteração, frequentemente a ignoram por meses — por vergonha, por negação ou simplesmente por não associarem o sintoma ao câncer de mama.
A mensagem precisa ser clara: qualquer nódulo, endurecimento ou alteração na região mamária masculina deve ser avaliado por um médico.
O constrangimento de procurar ajuda é infinitamente menor do que as consequências de um diagnóstico tardio.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico segue os mesmos princípios do câncer de mama feminino.
Exame clínico
Palpação da mama e das axilas pelo médico. Em homens, o exame é mais objetivo pela menor quantidade de tecido.
Mamografia
Sim, homens podem e devem fazer mamografia quando há suspeita clínica.
A mamografia masculina é tecnicamente possível e útil para diferenciar ginecomastia (aumento benigno do tecido mamário) de lesões suspeitas.
Ultrassonografia
Complementa a mamografia na avaliação de nódulos sólidos e cistos.
Biópsia por agulha grossa (core biopsy)
É o exame definitivo.
Uma amostra de tecido do nódulo é retirada e analisada pelo patologista, que determina o tipo histológico, o grau e os receptores hormonais e HER2 — informações essenciais para o planejamento do tratamento.
Características do câncer de mama masculino
O câncer de mama masculino apresenta algumas particularidades em relação ao feminino.
O tipo histológico mais comum é o carcinoma ductal invasor, presente em mais de 90% dos casos.
O carcinoma lobular invasor é extremamente raro em homens, pois o tecido mamário masculino possui poucos lóbulos.
A grande maioria dos tumores masculinos (mais de 90%) expressa receptores de estrogênio positivos, tornando a hormonioterapia um componente central do tratamento.
A expressão de HER2 é menos frequente em homens do que em mulheres, e o subtipo triplo-negativo é raro.
Tratamento do câncer de mama masculino
O tratamento segue os mesmos princípios do câncer de mama feminino, adaptados ao contexto anatômico e hormonal masculino.
Cirurgia
A mastectomia (remoção da mama) é o tratamento cirúrgico padrão.
Devido ao pequeno volume de tecido mamário masculino, a cirurgia conservadora raramente é viável.
A biópsia do linfonodo sentinela é realizada conforme os mesmos critérios do câncer feminino.
Quimioterapia
Indicada em tumores de alto risco, com comprometimento linfonodal ou com perfil biológico agressivo.
Os protocolos são os mesmos utilizados em mulheres.
Radioterapia
Indicada após a mastectomia em tumores localmente avançados, com margens comprometidas ou com comprometimento linfonodal extenso.
Os critérios são semelhantes aos do câncer feminino.
Hormonioterapia
O tamoxifeno é o tratamento endócrino padrão para homens com tumores que expressam receptores hormonais positivos.
É administrado por via oral por 5 a 10 anos, da mesma forma que em mulheres.
Os inibidores de aromatase isolados não são eficazes em homens (porque os testículos produzem testosterona por via independente da aromatase), mas podem ser utilizados em combinação com análogos do GnRH em situações selecionadas.
Terapia anti-HER2
Trastuzumabe e pertuzumabe são indicados para tumores HER2-positivos, seguindo os mesmos protocolos do câncer feminino.
Prognóstico
Quando comparado estágio a estágio e subtipo a subtipo, o prognóstico do câncer de mama masculino é semelhante ao feminino.
As taxas de sobrevida por estágio são comparáveis.
O que compromete o prognóstico no câncer de mama masculino não é a biologia — é o atraso diagnóstico.
O diagnóstico tardio resulta em estágios mais avançados ao diagnóstico, o que explica por que, nas estatísticas gerais, a sobrevida masculina parece inferior à feminina.
Isso reforça a importância da conscientização: quanto mais cedo o diagnóstico, melhores as chances de cura — exatamente como nas mulheres.
Impacto emocional e suporte
O diagnóstico de câncer de mama no homem carrega um estigma social significativo.
Muitos homens relatam vergonha, isolamento e dificuldade em encontrar suporte — tanto por parte da sociedade quanto dos serviços de saúde, que são majoritariamente voltados para mulheres.
Campanhas como o Outubro Rosa frequentemente não incluem homens em sua comunicação, reforçando a percepção de que o câncer de mama é exclusivamente feminino.
Essa invisibilidade contribui para o atraso diagnóstico e para o sofrimento emocional dos pacientes.
O suporte psicológico é fundamental.
Grupos de apoio inclusivos, acompanhamento com psicólogo especializado em oncologia e a validação da experiência masculina no contexto do câncer de mama são componentes essenciais do cuidado integral.
Perguntas frequentes sobre câncer de mama no homem
Homem pode ter câncer de mama?
Sim. O câncer de mama masculino representa cerca de 1% de todos os cânceres de mama. Homens possuem tecido mamário e podem desenvolver tumores malignos nesse tecido.
Quais são os sintomas do câncer de mama no homem?
O sintoma mais comum é um nódulo indolor atrás do mamilo. Outros sinais incluem retração do mamilo, secreção sanguinolenta, alterações na pele da mama e linfonodos aumentados na axila.
O que causa câncer de mama no homem?
Os principais fatores de risco incluem mutações genéticas (especialmente BRCA2), histórico familiar de câncer de mama, idade avançada, síndrome de Klinefelter, obesidade e exposição a estrogênio exógeno.
Como é o tratamento?
O tratamento segue os mesmos princípios do câncer de mama feminino: cirurgia (geralmente mastectomia), quimioterapia quando indicada, radioterapia em casos selecionados e hormonioterapia com tamoxifeno para tumores com receptores hormonais positivos.
O câncer de mama masculino tem cura?
Sim, especialmente quando diagnosticado em estágios iniciais.
As taxas de cura são semelhantes às do câncer de mama feminino quando comparadas por estágio.
O principal fator que compromete o prognóstico é o atraso no diagnóstico.
Homens devem fazer mamografia?
Não como rotina de rastreamento.
A mamografia masculina é indicada quando há sintomas suspeitos (nódulo, secreção pelo mamilo) ou quando há alto risco (mutação BRCA2 confirmada, síndrome de Klinefelter).
Filhos de homens com câncer de mama herdam o risco?
Se o câncer está associado a uma mutação genética (como BRCA2), cada filho tem 50% de chance de herdar a mutação.
A testagem genética em cascata é recomendada para familiares de primeiro grau.
Dr. Wesley Andrade · CRM 122593/SP
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