A atriz Angelina Jolie passou por uma mastectomia dupla de forma preventiva. Quando uma mulher pode se submeter a esse procedimento?

Foto: Divulgação/Instagram/Time France

A mastectomia preventiva — hoje mais frequentemente realizada na forma de adenomastectomia profilática — pode ser considerada quando a mulher apresenta um risco muito elevado de desenvolver câncer de mama ao longo da vida. Esse risco elevado é identificado principalmente em mulheres portadoras de mutações genéticas hereditárias, como BRCA1 ou BRCA2, mas também pode levar em conta idade, histórico familiar detalhado e exames de imagem.

Não se trata de uma cirurgia indicada para todas as mulheres, nem apenas para quem tem casos de câncer na família. A decisão deve ser individualizada, tomada após avaliação médica criteriosa e com pleno entendimento dos riscos, benefícios e impactos físicos e emocionais do procedimento.

Segundo a atriz, exames identificaram um gene defeituoso que poderia causar câncer de mama no futuro. O que é esse tipo de alteração?

Trata-se de uma mutação genética hereditária, mais comumente nos genes BRCA1 e BRCA2. Esses genes funcionam como verdadeiros “anjos da guarda” do nosso código genético. Em pessoas sem a mutação, eles têm a função de vigiar, proteger e reparar danos no DNA que surgem naturalmente ao longo da vida.

Quando ocorre uma mutação nesses genes, esse mecanismo de proteção falha. O “anjo da guarda” perde a capacidade de corrigir erros no DNA, permitindo que essas falhas se acumulem e aumentem o risco de desenvolvimento de câncer, especialmente câncer de mama e câncer de ovário. É importante destacar que ter a mutação não significa ter câncer, mas sim ter um risco muito maior do que o da população geral.

A atriz posou para uma capa de revista mostrando cicatriz na região do peito. Como funciona esse procedimento? Existe meio de evitar cicatriz?

O procedimento mais utilizado atualmente é a adenomastectomia profilática, que consiste na retirada quase total do tecido glandular mamário — onde o câncer se origina — com preservação da pele da mama e do complexo aréolo-papilar (bico do seio)

Nesses casos a reconstrução mamária é realizada no mesmo ato cirúrgico, utilizando próteses  de silicone ou, eventualmente, expansores.

Toda cirurgia deixa cicatriz. Não existe cirurgia sem cicatriz. No entanto, as técnicas modernas buscam minimizá-las e posicioná-las de forma discreta, como ao redor da aréola ou no sulco da mama (como não é possível eliminar a cicatriz mesmo de uma cirurgia estética para colocação de prótese de silicone). Não é possível eliminar completamente a cicatriz, mas é possível obter resultados estéticos cada vez mais naturais.

Como funciona a recuperação após esse procedimento?

A recuperação costuma ser relativamente rápida. A internação hospitalar geralmente varia de um a dois dias, e o retorno gradual às atividades ocorre ao longo de quatro a seis semanas. Nos primeiros dias, é comum haver dor, inchaço e alguma limitação de movimentos dos braços, sintomas que costumam ser bem controlados com medicação e acompanhamento médico.

A maioria das mulheres consegue retomar suas atividades cotidianas progressivamente, sempre respeitando as orientações médicas.

O fato de ter feito esse procedimento livra a mulher de ter câncer de mama no futuro?

Não completamente. A adenomastectomia profilática reduz o risco de câncer de mama em cerca de 90% a 95%, mas não elimina o risco por completo. Sempre pode permanecer uma quantidade microscópica de tecido mamário residual.

Por esse motivo, mesmo após a cirurgia, é fundamental manter acompanhamento médico regular, embora geralmente menos intenso do que antes do procedimento.

A mãe da atriz morreu vítima de câncer de mama. O risco é real para ela e para seus familiares?

Sim, o risco era real. Um histórico familiar importante, especialmente com casos de câncer em idade precoce ou múltiplos membros da família afetados, levanta a suspeita de uma síndrome hereditária de câncer.

No caso de mutações como BRCA1 ou BRCA2, familiares de primeiro grau — como irmãos e filhos — têm cerca de 50% de chance de carregar a mesma mutação. Por isso, o aconselhamento genético, a consulta com médico mastologista e os testes específicos são fundamentais para identificar quem realmente está em risco e definir as melhores estratégias de prevenção e acompanhamento.

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